O que mais eu poderia pensar enquanto desvio meus olhos do espelho? Enquanto formulo várias frases para registrar aqui, mas elas parecem se esvaecerem quando eu realmente me disponho a escrever algo intenso. E verdadeiro. Tentar sempre procurar um sentido em tudo, isso eu faço a todas as horas, e talvez, lá encontrar um restinho de calma e felicidade. E pareço às vezes não estar levando nada comigo, mas não posso acreditar e nem permitir tamanho desleixo, alguma coisa tem que existir em mim para que eu possa carregar.
Tantos motivos para se escrever, tantos temas que eu poderia agarrar, mas eu não quero. Eu apenas estou pensando nas coisas que não posso escrever, nas pessoas que não podem me ler. É incrível como você ainda persegue os cantos do meu cérebro, você pode até por muitas vezes se esconder, desfilando perdidamente por enormes e labirintícos corredores, mas mesmo sem ver você toda hora, sem sentir o seu cheiro a todo instante, eu sei que você está lá naquele lugar e que não vai me deixar tão fácil.
Enquanto eu mantenho meus olhos fixos em qualquer objeto à minha frente, a própria porta do guarda-roupa, eu vejo aquele filme passando mais uma vez no meu inconsciente. Posso sentir a sua respiração mudando de ritmo enquanto desliza pelo sofá preto de couro e me ouve cantarolar qualquer melodia perdida e sem vontade. O eco dos passos na escada são só mais um motivo para se achar graça, afinal, a graça em si, está toda em você. Ainda me admiro ( e perturbo-me!) com a sua sagacidade! Com o seu entusiasmo diante de tudo, absolutamente tudo. Alguém que não tem o menor motivo para não andar de cabeça erguida, que não tem medo de lutar ainda, e cada vez mais... Uma confiança suprema que só um vencedor pode sustentar.
Você é a sagacidade em pessoa! E como ainda me dói sentir isso tudo! É como se centenas de alfinetes perfurassem cada fibra do meu miocárdio, compassadamente, demoradamente, mas com harmonia, como em uma música mui lenta. E os tecidos vão se esfacelando, e o que sobra é a alma de um coração que já não queria mesmo mais bater. De repente você volta, e somente nos meus sonhos, nos meus mais inalcançáveis sonhos, você volta trazendo um martelo consigo, e vai aos poucos, voltando a acertar meu peito em cheio. Você não tem piedade, e vai martelando tudo o que puder alcançar. Tudo o que ainda posso sentir, é o torpor do fel em minha boca: incrível visão da morte. Eu havia prometido que não ia escrever sobre isso, mas claro, você sempre vence.
(A respiração torna-se mais difícil, isso aumenta, porque eu não consigo escrever assim. Vou voltar depois.)
(...)
E quando volto, poeira. Embaça minha visão. Das coisas velhas e sem uso, dos bens desapropriados, é destas coisas que tenho que me desfazer, mas os meus sapatos não escondem a verdade. Poeira.
E volto, e só penso em não continuar com isso. Algumas pessoas parecem ter simpatia pelo sofrimento e eu não quero me tornar uma delas. Ao contrário, eu posso parar e olhar em minha volta, tentar curar minha obsessão por mais, meu espírito insaciável que só sabe reclamar por mais.
Debaixo destes escombros, vou recontando meus passos, procurando alguma poesia que já tenha passado por debaixo deles. A minha maior vontade é dormir por horas e muitas horas, como se o sol do novo dia nunca fosse chegar e iluminar o meu quarto sem janelas. Eu quero acreditar que eu posso ser melhor, mas isso tornaria este texto não sincero o bastante, como eu aprecio. Esperando para os sonhos se concretizarem, quantos dos iguais a mim agora também fazem isso? Esperar. Palavra que me inunda de pavor. E ódio.
Mas há que ter uma graça em tudo. Assim como há polêmica o tempo todo, também tem de existir uma piada para tudo. Quando se permite não se pensar na origem do universo e de todos os escombros soterrados dentro da sua casca de noz, quando não nos perguntamos quem nos fez e para onde vamos, e para quem teremos de prestar contas depois de tudo, é aí que se pode se agarrar em tudo e apenas viver o momento. Ou melhor que isso, se desacorrentar de tudo, e viver o momento. Sem sangue no teclado. Sem um monitor úmido, apenas o reflexo do branco dos dentes asseados no espelho, e o viver. A certeza. Essa eu quero pra mim, a consoladora certeza de que estou viva. Aí todos os problemas parecem virar uma simples cortina de fumaça e os fardos em nossas costas, flores recém colhidas: tulipas amarelas. A chuva que cai insistentemente sobre as nossas cabeças causando catástrofes todos os dias, agora serve para encharcar o solo e trazer até nosso olfato aquele delicioso cheirinho de terra molhada.
Tantos lugares para ainda pôr os pés, tantos rostos para ainda ver nascer um sorriso, mas a minha juventude vai prevalecer até onde? Até quando ela vai continuar me carregando? Eu me canso de esperar. E eu me canso de viver enjaulada. Vendo a luz do sol, mas não o tocando. Problemas de comunicação. Nada parece nos encher, no entanto, é só depois de vazios que mostramos o fundo, a verdade de verdade. Quando são recolhidos todos os escombros, resgatadas todas as vidas e limpado todo o terreno, nessa hora, quando não há mais nem um galho caído se quer para se esconder, aí claro, todo mundo é forte o bastante para aparecer e sustentar a sua mediocridade além de todos os outros.
Procriação da miséria. É isso que tenho visto, onde quer que eu olhe. E nada pode me fazer mudar de idéia, assim como também ninguém faz nada para mudar isso, aliás: nada. Partindo do princípio (famoso) de que o bater de asas de uma borboleta no Japão pode causar uma chuva no Central Park, então é melhor capturar a borboleta e pesquisá-la detalhadamente? Ou tão logo matá-la. É assim que estaremos fazendo nossas previsões daqui alguns anos? Nada muda. O mundo continua tão igual como quando foi criado, você pode não concordar, mas em sua essência é isso sim. E eu fico pensando o que me faz ficar aqui a esta hora da noite escrevendo nem eu bem sei o quê, sem saber quem e quantos irão ler, enquanto a Itália sofre com terremotos, as borboletas provocam chuva nos Estados Unidos, e o presidente deles fala bobagens terríveis a estudantes turcos. O planeta gira em torno do sol e as leis básicas da física de Newton são usadas por algum aluno que não consegue entender o que aquelas fórmulas todas significam, em algum lugar do mundo...
E novas decobertas são descobertas, e novas tecnologias aprimoradas. O mercado se expande e a propaganda se garante. E pensar que isso tudo começou com um desabafo de memórias... Mas vá lá, ainda sou jovem, se não puder divagar agora, quando é que vão me dar a concessão de fazê-lo? Eu ainda posso rir se olhar bem de longe para estes restos de entulho. Eu posso continuar indo mais a fundo, mas em alguém sempre vai doer, e algum outro sempre vai praguejar.
Alguém quem sabe, pode até mudar algo em algo. Mas eu, vou continuar passeando alegremente por cima desses morros de escombros, sustentando um sorriso no rosto, e o velho cálice nas mãos sem marcas. Vou derramá-lo em algum ponto estratégico e ficar assoprando desesperadamente até que ele comece a rolar de um canto ao outro, formando um rio sanguinolento, um fluxo escarlate que possa manchar todas as cinzas e restos, empoeirados. Nos escombros, eu: inteiramente púrpura!