segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Antidestino



Caos que é ser
Um átimo de tempo prolonga-se num espesso fio,
Amarra o coração e faz-se traje de gigante.
Repetidas canções de outono são ensaiadas por velhinhas de verde,
Estende-se, povoando os buracos numa roda de olhos em pares,
Tempo feroz, só cresce e sufoca...
Num girando de vermelho em vagar,
O peso da sua culpa estilhaça estes pares.
Num assomo de tontura e dor,
O tempo espicha-se... com malícia toca o longe,
Corrói o amanhã.

Depois que as boas águas retornam e o ar refresca-se,
Não há mais espaço para enganos,
Pois que de tempo vive o sólido e orgânico.
A dinâmica do caos implode outra vez.
Tal consciência, outrora sonhou-se vítima,
Agora assiste ao mesmo ato confuso.
Tão diverso é o queixume...
Tão ondulante é a lamentação...
Estranho pensar em ser.
Num coração impressionável, golpes de um caos de compassos prontos
Ritmados por algum padrão misterioso.
Sem hora para cessar,
Sem repouso - consolo dos partidos,
Sem um esconderijo pródigo.
Não detém o controle, jamais.

[*]

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Tanto


Já há tempo sem tornar a vir, tanto. Que o tempo nos atrapalha e nos acomoda, nos sequestra de nós, e mal temos tempo para seguir nos odiando do jeito que sempre foi. E me sinto como daquela vez. Um corte abrupto, um golpe seco é este cérebro dilatando em compassados tremores, para dentro. Do avesso, nossas vísceras amargam o fel que outrora engolimos, passou anos entalado no meio da garganta. E digo, nós ainda dizemos.
E escolho. Meu lugar de esconder: escondo tão delicadamente nosso medo do suor, não o do trabalho e do esforço, mas do tremor que nos acomete sem ele. Escondo as camisas pretas que tanto sempre usamos e agora, depois de vozes se amarrando no meu pescoço, contorcendo aos poucos e me fazendo zunir, passaram elas a ser fruto de vergonha. Ostentamos o colorido que é pra nos punir. Tanto...
Do que dizia que eu era, e acreditava mesmo ser, e dizia continuar a ser. O que queria ser, o que invento ser, e questiono se mesmo era, nada mudou, enfim. Mas vá lá, só me deixem continuar a passear despercebida! Eu imploro, e tanto mesmo.
E que arda, que é das coisas que doem que gosto, de tais coisas eu me delicio. E que arranque pedaço, como dizem, que apodreça uma parte, se possível apenas uma parte, que é dessas coisas que somos feitos. E que exploda, que inunda, que morra. Que mate sempre e tanto, que é depois disso tudo que a vida ressurge. Para um mundo novo: um velho completamente destruído.
É dessas coisas que vem a mudança, o sonho, as águas, a catarse. Para os que entendem do mergulho, entendem de cavar sem ver a luz do sol, pretendem descer e descer... para os que não separam e não partem, não iludem e não temem. Para estes: nós, os campos de água.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Imorredouro

Será que Eu sinto mesmo tanta falta sua quanto parece ser? Por isso resolvi te escrever agora, minha terna amiga. Desposei a solidão, mas quando lembro de que tenho você para me corresponder, Eu posso ainda tentar.
A maior parte do tempo, Eu tento fechar a minha mente para mim mesmo... apenas para pensar em você. Para ouvir a música mais uma vez e sentir a dor do meu sangue escorregando pelas veias, ainda minhas? Eu prometi para mim mesmo que isto iria mudar, mas Eu continuo tendo vergonha de mim, me vexar é agora o ordinário. Sem glória. Sem celebração. Mas com amor.
E se o amor deve doer de dentro para fora, se ele deve ser sempre um rio fluindo sem medo, escorrendo e pingando, gotejando sem ser vulgar... E se o amor deve ir enchendo todas as superfícies, rasas ou as mais profundas, e todos os buracos ir purificando, e lustrando, facilitando. Clareando. Então Eu amo.
Não é nenhum tipo de inspiração, minha terna, e sim fuga da certeza: eu te escrevo para fugir de todas as minhas certezas. Um poder muito forte, que o meu cérebro não tem a menor chance contra, este é o poder. É a luz em si: os sonhos são como anjos que mantêm o mal afastado, pela glória de todo este poder, os anjos nos conduzem através do paraíso e os sonhos, voando, nos perseguem.
Foi um bom torrão de tempo gasto para todos os planejamentos, toda a criação “super-imaginária” de cenas tão incertas quanto as pessoas tidas como personagens. Encontros e conversas, cartas e garrafas, livros e cenas: tudo não passou de imaginação, e imaginação nossa, minha amiga. As minhas sobrancelhas se arqueiam quando penso em tudo o que ficou para trás, você reconhece aquele meu velho gesto, mesmo estando agora a quase duzentos anos de distância, Eu suspiro e deixo o meu olhar falar por si só, enquanto permaneço de olhos fechados.
Este torrão de tempo ainda vai ser tostado, liberando o cheiro acre e ardido de desejos sapecados. Depois de tostado, ele vai ser moído e passado, vai ser o aroma mortificante do café de todos os dias. Vai penetrar fundo no meu fígado. E o cheiro vai entupir o meu espírito e se ir, deixando o líquido negro a aquecer as veias e os pensamentos.
Tenho o café, mas Eu não sei mais se o que faço é o certo ou o que eu queria que fosse o correto. Eu não tenho meta nem esperança aqui, Eu não tenho nenhuma tarefa. Veja só, minha terna amiga, não tenho nem a tarefa de me preocupar com uma tarefa futura! Ouça bem, quanta graça... Aqui Eu sei, a salvação. Aqui eu tenho você e apenas você, aqui escrevo Eu com letra maiúscula: aqui, Eu, posso.
Eu posso derramar o meu cruel egoísmo e orgulho, você bem os conhece. Continuo sentindo que Eu poderia desenterrar muito mais, talvez muito que até fosse útil para você, demasiado me agradaria.
Andando pelas ruas daqui, longe de qualquer resquício da modernidade urbana que você tem de conviver, vejo a beleza em queixos bem desenhados e articulados, posso até ver beleza em uma intelectualidade afetada, no prazer dos erros, na nostalgia dos sonhos presentes. No meu ardente desejo de rever o mar. Aqui onde a sociedade nunca irá imaginar existir telefones e computadores, onde as cerimônias e as visitas valem muito mais do que os sentimentos, posso até ver beleza em um chá servido com cortesia e apenas isso. Mas nunca será a sua beleza. O meu corpo se aquecerá se eu continuar a pensar em você. A sua água me invadirá se eu continuar a pensar...
Você é a beleza no riso tímido e nunca malicioso, é a beleza nos olhos tristes sem razão. Você tem a beleza nas palavras verdadeiras que não precisam de planejamento para se cumprirem: é mais do que beleza quando um suspiro ardente soluça do fundo do seu peito e vem à tona marejando a minha alma! Uma luta por mais ar em um pulmão que já nem mais sabe o que é respirar, o nosso torrão imortal.
E até quando acreditar em sonhar? Até onde desejar fazer tudo sozinho? Até quando desejar ser sozinho? Se o som sobe sempre quando o coração acelera e Eu não me perdôo se não me emocionar. Com você eu posso. E eu tenho calafrios. Tenho calafrios!
Não deixar o resto secar, você sempre toca neste assunto, ainda ter o que colher lá dentro, e assim querer ver a cesta sempre cheia. Enquanto os joelhos se dobram em sutil movimento acima do verde das colinas, correndo... Você lembra? Correndo... o balanço dos seus cabelos, em campos e mais campos, sempre verdes e eternos, tão eternos quanto o quê? Colhendo e apenas olhando para o alto, o único bem que realmente nos deveria interessar.
Mas daqui, tenho que partir. Você me ensinou a preservar uma boa vontade de colher, e eu me mantenho em aprendizado. De você, ainda mais, tenho a sua água imortal escorrendo na minha nuca, colhida dos poços daqueles campos. E a água continua a ser algo que flui: não importa onde você a coloque. E assim como ela, e sempre com ela, o amor me acompanha, fluente e imorredouro.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Ele me disse!

Caótico. As cores no quadro daquela parede sem cor, ele sentia o balanço ressurgindo pela atmosfera da vida que elas transmitiam, ondas de impulsos que assim ressurgiam e o carregavam no mesmo ritmo, o compasso era o mesmo. Ele não queria mais olhar para lá. Os olhos eram estes mesmos que agora posso ver, mas o poder de controlá-los, não o era ainda. Seu coração se sentia tão duro que quase não conseguia mais bater, aquela respiração entrecortada era quem insistia em segui-lo, um sopro forte que fazia o seu corpo todo dilatar... e o calor da solidão fazia as têmporas rasgarem.

Mas ele olhou novamente. As cores no quadro. Abria sua mente para que os pensamentos pudessem entrar e sair, para que pudessem se afogar em uma realidade mergulhada em angústia e cumprir os seus desígnios. Muitos deles entraram e fizeram seus desfiles, afundaram naquela realidade, mas não quiseram mais sair... e ele não podia falar, por causa da confusão em sua cabeça.

Na nuca, o peso de tanta fuga: fugir da inconsciência dos rastros daquelas cores, mais uma vez. E por dentro, nas veias, é... acho que foi isso que ele me disse, exatamente nas veias, o fluxo incansável de algo que aguarda uma existência para se libertar, ele sentia rios de vida querendo ressurgir... nos pulmões eles podiam encontrar um abrigo, enquanto o ar entrava e os deixavam cheios, muito cheios, assim como fica a respiração em um momento de desespero.

Mas quão logo eles se enchiam, já estavam vazios, e a confusão não deixava com que os impulsos fossem controlados. Eles não conseguiam fugir. E os pulmões continuavam a se encherem e se esvaziarem rapidamente. O peso na nuca. O calor. Ele assim me disse.

E o peso seguia martelando e martelando, e empurrando as suas costas em um movimento compulsivo que o balançava aos poucos. Mas o ritmo da respiração se acelerava, o coração que não se agüentava em si, ia sugando mais ar e o enchendo as vísceras, e as têmporas reclamavam e a nuca se contorcia, e o balanço continuava. Não párava. Aumentava. Sente? É forte, as mãos tremiam, é claro que o suor escorria. Não mais as suas costas, mas agora o seu corpo inteiro se contorcia seguindo o ritmo. A melodia martelava e martelava. E o levava. Não tema, ele me disse, encontra a tua face, e a encara. Entrega-te a estas malditas cores venenosas...

Mas como toda chama que uma hora há de se apagar, assim também os pulmões se acalmaram. E o coração voltou a regular a vida. Pôde sentir de novo a doçura, a candura daquela brisa colorida. Um motivo? Todos. Todos sabemos como nos perturbar. Sabemos como fingir não lembrar daquilo que fazemos de tudo para esquecer. Sabemos como sonhar pesadelos e perder o sono. Sabemos como temer nossos impulsos, os mais sombrios. E por que não o fazemos? Por que não nos perturbamos? Por que não revelamos o negror das raízes que nos carcomem por dentro? Temer. Ele me disse.

É por isso que o corpo dá tantas respostas, na luta contra a sobrevivência. O desejo de morte que está dentro de tudo. O poder de quem enfrenta a si mesmo. Como em cores em um quadro, que passam a ser melodias que o conduziram nauseante flutuando rumo ao que queria. Quem me lê, sabe o que quer ressurgir dentro de si e apagar as marcas do medo da própria testa. As marcas do medo da solidão. Enfrentá-lo, é ter a certeza de não estar só, por sentir a certeza correndo dentro de si, te sentindo contigo, o que mais há para temer?

Não quero arrancar o quadro de lá, ele me disse, mas também não posso controlar o
momento de olhar para ele. Aquela parede é minha velha conhecida, e eu sei, ela acha muita graça de mim. A tolice de quem se perde por entre labirintos do passado, sonhando em se encontrar em júbilos do futuro, é essa a graça que aquela parede vê em mim. Mas ah... Ela tão cruelmente se engana, pois eu ergo meu queixo, sustento minha face em sua direção, para admirar as cores caóticas que quero sempre ver, mas jamais para observar o que foi feito ou o que ainda se pode fazer, eu a olho para contemplar o presente. Ele assim me disse.

E o seu punho se fecha com a força dos que amam e se ergue aos berros! Ele sabe o que é. E a sua boca é de todo um sorriso altivo, a confiança reina nele. E em ti? Um exercício de liberdade. Temer-se. Perturbar-se. O gosto doce invade as suas papilas gustativas. As gotas de suor escorrem na mesma velocidade e ritmo a que o sangue é conduzido dentro do seu corpo, rios levados pelo impulso de um coração forte e musculoso. Conduz o ressurgimento da certeza.

Isso, não foi preciso que ele me dissesse, eu também o sentia. Senti, ainda, o sol batendo em nossas faces no momento em que o vi e o ardor dos meus olhos, tamanha a sua beleza. Lágrimas não irão limpar este caminho, ele me disse, para vagar assim como ele pela luz... Eu sinto as suas mãos firmemente amarradas no meu pulso, incrustando as unhas na minha carne. E tenho a certeza de que o presente é imortal dentro de mim, a cada segundo em que vai morrendo e se desfazendo dentro do meu desejo de repeti-lo pela eternidade.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Escombros em Rios de Poeira e Sangue

O que mais eu poderia pensar enquanto desvio meus olhos do espelho? Enquanto formulo várias frases para registrar aqui, mas elas parecem se esvaecerem quando eu realmente me disponho a escrever algo intenso. E verdadeiro. Tentar sempre procurar um sentido em tudo, isso eu faço a todas as horas, e talvez, lá encontrar um restinho de calma e felicidade. E pareço às vezes não estar levando nada comigo, mas não posso acreditar e nem permitir tamanho desleixo, alguma coisa tem que existir em mim para que eu possa carregar.

Tantos motivos para se escrever, tantos temas que eu poderia agarrar, mas eu não quero. Eu apenas estou pensando nas coisas que não posso escrever, nas pessoas que não podem me ler. É incrível como você ainda persegue os cantos do meu cérebro, você pode até por muitas vezes se esconder, desfilando perdidamente por enormes e labirintícos corredores, mas mesmo sem ver você toda hora, sem sentir o seu cheiro a todo instante, eu sei que você está lá naquele lugar e que não vai me deixar tão fácil.

Enquanto eu mantenho meus olhos fixos em qualquer objeto à minha frente, a própria porta do guarda-roupa, eu vejo aquele filme passando mais uma vez no meu inconsciente. Posso sentir a sua respiração mudando de ritmo enquanto desliza pelo sofá preto de couro e me ouve cantarolar qualquer melodia perdida e sem vontade. O eco dos passos na escada são só mais um motivo para se achar graça, afinal, a graça em si, está toda em você. Ainda me admiro ( e perturbo-me!) com a sua sagacidade! Com o seu entusiasmo diante de tudo, absolutamente tudo. Alguém que não tem o menor motivo para não andar de cabeça erguida, que não tem medo de lutar ainda, e cada vez mais... Uma confiança suprema que só um vencedor pode sustentar.

Você é a sagacidade em pessoa! E como ainda me dói sentir isso tudo! É como se centenas de alfinetes perfurassem cada fibra do meu miocárdio, compassadamente, demoradamente, mas com harmonia, como em uma música mui lenta. E os tecidos vão se esfacelando, e o que sobra é a alma de um coração que já não queria mesmo mais bater. De repente você volta, e somente nos meus sonhos, nos meus mais inalcançáveis sonhos, você volta trazendo um martelo consigo, e vai aos poucos, voltando a acertar meu peito em cheio. Você não tem piedade, e vai martelando tudo o que puder alcançar. Tudo o que ainda posso sentir, é o torpor do fel em minha boca: incrível visão da morte. Eu havia prometido que não ia escrever sobre isso, mas claro, você sempre vence.

(A respiração torna-se mais difícil, isso aumenta, porque eu não consigo escrever assim. Vou voltar depois.)


(...)


E quando volto, poeira. Embaça minha visão. Das coisas velhas e sem uso, dos bens desapropriados, é destas coisas que tenho que me desfazer, mas os meus sapatos não escondem a verdade. Poeira.

E volto, e só penso em não continuar com isso. Algumas pessoas parecem ter simpatia pelo sofrimento e eu não quero me tornar uma delas. Ao contrário, eu posso parar e olhar em minha volta, tentar curar minha obsessão por mais, meu espírito insaciável que só sabe reclamar por mais.

Debaixo destes escombros, vou recontando meus passos, procurando alguma poesia que já tenha passado por debaixo deles. A minha maior vontade é dormir por horas e muitas horas, como se o sol do novo dia nunca fosse chegar e iluminar o meu quarto sem janelas. Eu quero acreditar que eu posso ser melhor, mas isso tornaria este texto não sincero o bastante, como eu aprecio. Esperando para os sonhos se concretizarem, quantos dos iguais a mim agora também fazem isso? Esperar. Palavra que me inunda de pavor. E ódio.

Mas há que ter uma graça em tudo. Assim como há polêmica o tempo todo, também tem de existir uma piada para tudo. Quando se permite não se pensar na origem do universo e de todos os escombros soterrados dentro da sua casca de noz, quando não nos perguntamos quem nos fez e para onde vamos, e para quem teremos de prestar contas depois de tudo, é aí que se pode se agarrar em tudo e apenas viver o momento. Ou melhor que isso, se desacorrentar de tudo, e viver o momento. Sem sangue no teclado. Sem um monitor úmido, apenas o reflexo do branco dos dentes asseados no espelho, e o viver. A certeza. Essa eu quero pra mim, a consoladora certeza de que estou viva. Aí todos os problemas parecem virar uma simples cortina de fumaça e os fardos em nossas costas, flores recém colhidas: tulipas amarelas. A chuva que cai insistentemente sobre as nossas cabeças causando catástrofes todos os dias, agora serve para encharcar o solo e trazer até nosso olfato aquele delicioso cheirinho de terra molhada.

Tantos lugares para ainda pôr os pés, tantos rostos para ainda ver nascer um sorriso, mas a minha juventude vai prevalecer até onde? Até quando ela vai continuar me carregando? Eu me canso de esperar. E eu me canso de viver enjaulada. Vendo a luz do sol, mas não o tocando. Problemas de comunicação. Nada parece nos encher, no entanto, é só depois de vazios que mostramos o fundo, a verdade de verdade. Quando são recolhidos todos os escombros, resgatadas todas as vidas e limpado todo o terreno, nessa hora, quando não há mais nem um galho caído se quer para se esconder, aí claro, todo mundo é forte o bastante para aparecer e sustentar a sua mediocridade além de todos os outros.

Procriação da miséria. É isso que tenho visto, onde quer que eu olhe. E nada pode me fazer mudar de idéia, assim como também ninguém faz nada para mudar isso, aliás: nada. Partindo do princípio (famoso) de que o bater de asas de uma borboleta no Japão pode causar uma chuva no Central Park, então é melhor capturar a borboleta e pesquisá-la detalhadamente? Ou tão logo matá-la. É assim que estaremos fazendo nossas previsões daqui alguns anos? Nada muda. O mundo continua tão igual como quando foi criado, você pode não concordar, mas em sua essência é isso sim. E eu fico pensando o que me faz ficar aqui a esta hora da noite escrevendo nem eu bem sei o quê, sem saber quem e quantos irão ler, enquanto a Itália sofre com terremotos, as borboletas provocam chuva nos Estados Unidos, e o presidente deles fala bobagens terríveis a estudantes turcos. O planeta gira em torno do sol e as leis básicas da física de Newton são usadas por algum aluno que não consegue entender o que aquelas fórmulas todas significam, em algum lugar do mundo...

E novas decobertas são descobertas, e novas tecnologias aprimoradas. O mercado se expande e a propaganda se garante. E pensar que isso tudo começou com um desabafo de memórias... Mas vá lá, ainda sou jovem, se não puder divagar agora, quando é que vão me dar a concessão de fazê-lo? Eu ainda posso rir se olhar bem de longe para estes restos de entulho. Eu posso continuar indo mais a fundo, mas em alguém sempre vai doer, e algum outro sempre vai praguejar.

Alguém quem sabe, pode até mudar algo em algo. Mas eu, vou continuar passeando alegremente por cima desses morros de escombros, sustentando um sorriso no rosto, e o velho cálice nas mãos sem marcas. Vou derramá-lo em algum ponto estratégico e ficar assoprando desesperadamente até que ele comece a rolar de um canto ao outro, formando um rio sanguinolento, um fluxo escarlate que possa manchar todas as cinzas e restos, empoeirados. Nos escombros, eu: inteiramente púrpura!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Um Derramo Púrpura

Vontade boa agora, essa de escrever. Pego o meu cálice das páginas em branco e desejo transbordá-lo desta energia criadora, posso mesmo ver o líquido púrpura se derramando por entre cá: sem linhas, sem contornos, um derramo. É uma potência magnífica que só parece ter aqueles que a merecem: aqueles que a busam e a louvam, por onde andarem. Não é bebida que se possa distribuir, muito menos desperdiçá-la, visto que rege boa parte do Ser. Quero esta garrafa em minha mesa agora, sem garçom e sem telespectador de mesa vizinha que tanto provém na arte da inconveniência: quero só a energia criadora me saciando o paladar e estalando nos meus lábios em um sorvo de coragem. Vontade boa de escrever.

Como se o destino fosse algo incerto, minhas sobrancelhas se curvam e o meu rosto é um todo de estranhamento e riso. Engraçado, já conhecer o próprio destino. Mas claro, eu sei, o púrpura é eterno. Se eu pudesse prever as formas que iriam se originar logo quando vi a bebida a se depravar deste cálice, talvez iria querer que a toalha permanecesse a sustentar aquele seu branco lívido. Mas por onde meus olhos puderem focar minha visão e eu sentir que ali devo me sentar, não haverá previsão matemática ou humana que me faça mudar de idéia, e então, naquele lugar, haverá um derramo criador.

Parece-me cada vez mais comum irromper em um diálogo com alguém e ouvir aquela palavra que, só em pensá-la, sinto-me dormente e pareço querer me entregar a ela com garrafa e tudo, mas não, não amigos: o tédio não pode nos vencer. Parece-me, algumas vezes, que o rótulo da garrafa não me é mais tão eficiente, parece não vender a mercadoria com a mesma velocidade de outrora. Estão os meus rótulos se extinguindo? Ou serão os rótulos meus?

Se eu pudesse apagar o barulho dos manuais deste mundo, ah... eu o faria sim. Tudo aquilo que não é conversa com humor, debate sem filosofia ou música com qualidade, juro que extinguiria tudo. Mas me restaria o silêncio? A única certeza é que ele me parece mais convidativo a escrever, assim a simpatia é inevitável. Mas como não posso acabar com nada por aqui, vou imaginar que desta mesa não dá para escutar nada, e pronto! A sala é bem grande e o som da televisão chega muito fraco. Bem melhor assim. Tento mergulhar no meu silêncio pessoal e tocar o púrpura mais de perto, quem sabe me derramar junto com ele. Eu poderia desenhar todos os meus sonhos nesta toalha xadrez. Ainda bem que já dispendei o garçom.

Quisera eu ser capaz de me desfazer de todo o tipo de stress e desconforto enquanto penso em estar aqui. Nos dias em que temos passado, acho que não é um exagero dizer que se é feliz porque foi dormir sem ter uma crise nervosa. Nossa energia, uma enorme parte dela, é gasta em coisas que não nos satisfazem, que apenas terminam por desenvolver o nosso vazio. Desta mesa posso ver todos completando suas refeições para estarem em condições de seguir o dia, mas quantos deles irão pagar a conta na hora certa? E como suas refeições, quantos poderão dizer que se sentem "completos"?

E o som, sim, a músia que posso ouvir quando vejo o cálie se enchendo, a margem vai mudando de direção e a energia gerando ainda mais criação. Observar as outras pessoas é realmente algo divertido, é também nessas horas que uma boa música faz falta. Eu não sei quanto vai dar esta minha conta, sempre me parece que não sorvi o bastante da minha bebida predileta, mas quando chega o garçom com a conta, as minhas previsões são tidas como equivocadas e tenho de pagar muito mais do que imaginei.

É hora de deixar a mesa. Admiro-me como às vezes pode ser tão difícil manter o controle dinte de algumas situações. Mas, puxa vida! Todo esse dinheiro mais uma vez?! Como podem cobrar tanto pela bebida púrpura? Como podem exigir tanto? Será inveja pela falta de talento? Eu não posso pagar tudo isso! Se eu ao menos estivesse satisfeita, mas eu não estou, eu nunca estou satisfeita...

Vou sair deste lugar pior do que entrei... ou não? Hoje é o dia dos derramados. Vou lá, derramo tudo: derramo a garrafa, os copos e os guardanapos. Derramos os talheres, sempre mal colocados aos olhos perfeccionistas de um obsessivo compulsivo. Derramo esta toalha ridícula com estampa dos cofres públios, um xadrez de todas as cores onde todos botam a mão. Derramo a tua cara, garçom incompetente! Vou derramar também estes pratos que por muitas vezes me deixaram mais faminta do que quando entrei aqui. Um final admirável? Derramo então a tua cara também! E vamos correndo que este lugar é prisão dos que não fogem! Vamos saindo que aqui não quero mais me sentar. Quando quiser sentir essa vontade boa, procurar-me-ei em um aconchego real. Derramo, enfim... o sonho, a alma, a salvação: o púrpura.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Informal, pensamentos assim.

O que você precisa para acordar todos os dias? Precisa de algo que possa te despertar? Um despertador que toque uma música de seu gosto a cada cinco minutos, a voz da sua mãe com aquela freqüência estridente irritando logo cedo o seu ouvido, ou você ainda tem algum recurso? Como você se levanta todos os dias? O que você precisa para ACORDAR todos os dias?

Acho que às vezes um belo soco de esquerda pode ser aproveitável, mas ele tem que te jogar longe, tem que te fazer levantar da cama, e depois da cadeira em frente a mesa do café, e depois, ainda, do sofá em frente a televisão. Tem que ser um soco que te faça sair de casa percebendo isso, falo informalmente, porque é assim que é, um soco, só pode ser informal.

Também seria melhor se todos na rua vissem a marca roxa e informal na tua cara, mas não a vergonha nela: somente a honra informal. Decides sair de casa para laborar mesmo depois de um golpe certeiro, é um ato digno de apreço. Um homem que acorda e assim segue movido pelo mesmo combustível.

Este homem pode pensar sobre o que aconteceu com ele logo pela manhã, mas certamente ele não quer fazer isso logo agora que o sol está nascendo de uma maneira tão bonita e diferente no rio da cidade. Ele sente a sua sensibilidade. E depois, aquela velha e forte náusea, de culpa, uma dolorosa culpa, por ter se conformado por tanto e tanto tempo.

A náusea o remete para memórias, não de ignorância, onde deixou passar as melhores oportunidades, mas o conformismo que o fazia achar que tudo estava bem assim como estava. Esta náusea quase o leva ao chão. É um aperto muito forte que ele sente e isso quase o deixa sem ar, a pedra que sente carregar dentro dele por tantos anos, parece ser mais dura do que ele sentia, talvez porque o verdadeiro peso da rocha ali incrustada em seu peito, eram os seus próximos quem tinham de carregar. Mas isso tudo, é muito informal.

Prefere se sentar. Afinal, foi tudo o que fez até ali, é este o legado que tem para os seus filhos, porque enquanto batia o seu cartão na empresa em que assinou a sua carteira, de nada a sua essência humana lhe serviu. De nada os seus sentidos puderam lhe dar uma visão melhor, e as paixões dentro dele, de nada puderam lhe dar uma vida melhor, ou mais feliz, como queira a informalidade.

Mas deve ser um homem forte, este. Por todos os seus dias, conseguiu sustentar a imagem a qual todos queriam ver, sim! A sua mediocridade foi capaz de lhe dar a máscara certa, e claro, ele soube atuar muito bem. O problema mesmo, é que sempre se sentiu orgulhoso quanto a isso, tinha o controle das coisas em suas mãos, o sorriso era forçado, o abraço era de longe, mas tudo ele podia controlar e conduzir, convencendo a todos da felicidade que os cercava.

O tempo deve ser mesmo o soco mais forte de todos, o mais informal, o mais doloroso. Sorte, que ele atinge de uma vez só, assim como a este homem. Informalmente, como foi toda a sua vida, no canto da platéia, na porta da igreja, no fundo da sala, sorrindo à mesa, assim, bem informalmente, o tempo lhe trouxe a sua cartada final. Não a carta de um curinga, mas um baralho todo de lamentações.

Há homens que vêm ao mundo para trabalhar. E assim, por trabalhar, garantir o curso da história e do consumo humano, tudo o que precisamos para satisfazer nossas necessidades, e nossos sentidos e desejos. Estes homens seguem erguendo o muro e não deixando com que a desorganização tome conta do globo, são vistos por todos como bons operários, e de fato o são, em sua maioria.

Outros dignos homens, vêm ao mundo com toda a sorte de inteligência, a sua razão lhes permite criar coisas novas e espetaculares, que aos poucos vão enchendo as nossas prateleiras em todo o planeta. A pena é que ainda não inventaram nada que pudesse frear a mesquinharia humana. Mas eles sabem do que todos precisam, e usam seus cérebros para tornar a nossa existência por vezes mais fácil e acessível, e por outras mais alegres e distraídas. São estes homens que conduzem a nossa superioridade enquanto seres pensantes.

Mas os outros, estes não sabem muito o que fazer. Na verdade, não sabem como fazer ou por que fazer. Ou viverão sufocados e perturbados tentando se encaixar, ou se entregarão ao seu ofício: vão se sentar, e apenas SENTIR o mundo.

Preserve a sua sensibilidade. Sinta-a da maneira que você considera mais forte. Louve a sua individualidade. Porque nenhum ser humano tem a voz igual à de outro, por isso, encontre a sua voz! Seja um destes “tipos” de homem, mas honre a sua posição, ou então invente outros novos tipos. Não deixe a informalidade lhe dominar o cristalino, coloque lá a honra de um soco certeiro envolta do teu olho preferido, e sai amigo, sai... Vai ver o mundo! Vai te achar nele! Procura a tua voz, semeia a tua voz, e canta com ela! Serve com ela! Louva com ela! Mas não desiste. Porque eu, eu já encontrei a minha.