terça-feira, 28 de abril de 2009

Ele me disse!

Caótico. As cores no quadro daquela parede sem cor, ele sentia o balanço ressurgindo pela atmosfera da vida que elas transmitiam, ondas de impulsos que assim ressurgiam e o carregavam no mesmo ritmo, o compasso era o mesmo. Ele não queria mais olhar para lá. Os olhos eram estes mesmos que agora posso ver, mas o poder de controlá-los, não o era ainda. Seu coração se sentia tão duro que quase não conseguia mais bater, aquela respiração entrecortada era quem insistia em segui-lo, um sopro forte que fazia o seu corpo todo dilatar... e o calor da solidão fazia as têmporas rasgarem.

Mas ele olhou novamente. As cores no quadro. Abria sua mente para que os pensamentos pudessem entrar e sair, para que pudessem se afogar em uma realidade mergulhada em angústia e cumprir os seus desígnios. Muitos deles entraram e fizeram seus desfiles, afundaram naquela realidade, mas não quiseram mais sair... e ele não podia falar, por causa da confusão em sua cabeça.

Na nuca, o peso de tanta fuga: fugir da inconsciência dos rastros daquelas cores, mais uma vez. E por dentro, nas veias, é... acho que foi isso que ele me disse, exatamente nas veias, o fluxo incansável de algo que aguarda uma existência para se libertar, ele sentia rios de vida querendo ressurgir... nos pulmões eles podiam encontrar um abrigo, enquanto o ar entrava e os deixavam cheios, muito cheios, assim como fica a respiração em um momento de desespero.

Mas quão logo eles se enchiam, já estavam vazios, e a confusão não deixava com que os impulsos fossem controlados. Eles não conseguiam fugir. E os pulmões continuavam a se encherem e se esvaziarem rapidamente. O peso na nuca. O calor. Ele assim me disse.

E o peso seguia martelando e martelando, e empurrando as suas costas em um movimento compulsivo que o balançava aos poucos. Mas o ritmo da respiração se acelerava, o coração que não se agüentava em si, ia sugando mais ar e o enchendo as vísceras, e as têmporas reclamavam e a nuca se contorcia, e o balanço continuava. Não párava. Aumentava. Sente? É forte, as mãos tremiam, é claro que o suor escorria. Não mais as suas costas, mas agora o seu corpo inteiro se contorcia seguindo o ritmo. A melodia martelava e martelava. E o levava. Não tema, ele me disse, encontra a tua face, e a encara. Entrega-te a estas malditas cores venenosas...

Mas como toda chama que uma hora há de se apagar, assim também os pulmões se acalmaram. E o coração voltou a regular a vida. Pôde sentir de novo a doçura, a candura daquela brisa colorida. Um motivo? Todos. Todos sabemos como nos perturbar. Sabemos como fingir não lembrar daquilo que fazemos de tudo para esquecer. Sabemos como sonhar pesadelos e perder o sono. Sabemos como temer nossos impulsos, os mais sombrios. E por que não o fazemos? Por que não nos perturbamos? Por que não revelamos o negror das raízes que nos carcomem por dentro? Temer. Ele me disse.

É por isso que o corpo dá tantas respostas, na luta contra a sobrevivência. O desejo de morte que está dentro de tudo. O poder de quem enfrenta a si mesmo. Como em cores em um quadro, que passam a ser melodias que o conduziram nauseante flutuando rumo ao que queria. Quem me lê, sabe o que quer ressurgir dentro de si e apagar as marcas do medo da própria testa. As marcas do medo da solidão. Enfrentá-lo, é ter a certeza de não estar só, por sentir a certeza correndo dentro de si, te sentindo contigo, o que mais há para temer?

Não quero arrancar o quadro de lá, ele me disse, mas também não posso controlar o
momento de olhar para ele. Aquela parede é minha velha conhecida, e eu sei, ela acha muita graça de mim. A tolice de quem se perde por entre labirintos do passado, sonhando em se encontrar em júbilos do futuro, é essa a graça que aquela parede vê em mim. Mas ah... Ela tão cruelmente se engana, pois eu ergo meu queixo, sustento minha face em sua direção, para admirar as cores caóticas que quero sempre ver, mas jamais para observar o que foi feito ou o que ainda se pode fazer, eu a olho para contemplar o presente. Ele assim me disse.

E o seu punho se fecha com a força dos que amam e se ergue aos berros! Ele sabe o que é. E a sua boca é de todo um sorriso altivo, a confiança reina nele. E em ti? Um exercício de liberdade. Temer-se. Perturbar-se. O gosto doce invade as suas papilas gustativas. As gotas de suor escorrem na mesma velocidade e ritmo a que o sangue é conduzido dentro do seu corpo, rios levados pelo impulso de um coração forte e musculoso. Conduz o ressurgimento da certeza.

Isso, não foi preciso que ele me dissesse, eu também o sentia. Senti, ainda, o sol batendo em nossas faces no momento em que o vi e o ardor dos meus olhos, tamanha a sua beleza. Lágrimas não irão limpar este caminho, ele me disse, para vagar assim como ele pela luz... Eu sinto as suas mãos firmemente amarradas no meu pulso, incrustando as unhas na minha carne. E tenho a certeza de que o presente é imortal dentro de mim, a cada segundo em que vai morrendo e se desfazendo dentro do meu desejo de repeti-lo pela eternidade.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Escombros em Rios de Poeira e Sangue

O que mais eu poderia pensar enquanto desvio meus olhos do espelho? Enquanto formulo várias frases para registrar aqui, mas elas parecem se esvaecerem quando eu realmente me disponho a escrever algo intenso. E verdadeiro. Tentar sempre procurar um sentido em tudo, isso eu faço a todas as horas, e talvez, lá encontrar um restinho de calma e felicidade. E pareço às vezes não estar levando nada comigo, mas não posso acreditar e nem permitir tamanho desleixo, alguma coisa tem que existir em mim para que eu possa carregar.

Tantos motivos para se escrever, tantos temas que eu poderia agarrar, mas eu não quero. Eu apenas estou pensando nas coisas que não posso escrever, nas pessoas que não podem me ler. É incrível como você ainda persegue os cantos do meu cérebro, você pode até por muitas vezes se esconder, desfilando perdidamente por enormes e labirintícos corredores, mas mesmo sem ver você toda hora, sem sentir o seu cheiro a todo instante, eu sei que você está lá naquele lugar e que não vai me deixar tão fácil.

Enquanto eu mantenho meus olhos fixos em qualquer objeto à minha frente, a própria porta do guarda-roupa, eu vejo aquele filme passando mais uma vez no meu inconsciente. Posso sentir a sua respiração mudando de ritmo enquanto desliza pelo sofá preto de couro e me ouve cantarolar qualquer melodia perdida e sem vontade. O eco dos passos na escada são só mais um motivo para se achar graça, afinal, a graça em si, está toda em você. Ainda me admiro ( e perturbo-me!) com a sua sagacidade! Com o seu entusiasmo diante de tudo, absolutamente tudo. Alguém que não tem o menor motivo para não andar de cabeça erguida, que não tem medo de lutar ainda, e cada vez mais... Uma confiança suprema que só um vencedor pode sustentar.

Você é a sagacidade em pessoa! E como ainda me dói sentir isso tudo! É como se centenas de alfinetes perfurassem cada fibra do meu miocárdio, compassadamente, demoradamente, mas com harmonia, como em uma música mui lenta. E os tecidos vão se esfacelando, e o que sobra é a alma de um coração que já não queria mesmo mais bater. De repente você volta, e somente nos meus sonhos, nos meus mais inalcançáveis sonhos, você volta trazendo um martelo consigo, e vai aos poucos, voltando a acertar meu peito em cheio. Você não tem piedade, e vai martelando tudo o que puder alcançar. Tudo o que ainda posso sentir, é o torpor do fel em minha boca: incrível visão da morte. Eu havia prometido que não ia escrever sobre isso, mas claro, você sempre vence.

(A respiração torna-se mais difícil, isso aumenta, porque eu não consigo escrever assim. Vou voltar depois.)


(...)


E quando volto, poeira. Embaça minha visão. Das coisas velhas e sem uso, dos bens desapropriados, é destas coisas que tenho que me desfazer, mas os meus sapatos não escondem a verdade. Poeira.

E volto, e só penso em não continuar com isso. Algumas pessoas parecem ter simpatia pelo sofrimento e eu não quero me tornar uma delas. Ao contrário, eu posso parar e olhar em minha volta, tentar curar minha obsessão por mais, meu espírito insaciável que só sabe reclamar por mais.

Debaixo destes escombros, vou recontando meus passos, procurando alguma poesia que já tenha passado por debaixo deles. A minha maior vontade é dormir por horas e muitas horas, como se o sol do novo dia nunca fosse chegar e iluminar o meu quarto sem janelas. Eu quero acreditar que eu posso ser melhor, mas isso tornaria este texto não sincero o bastante, como eu aprecio. Esperando para os sonhos se concretizarem, quantos dos iguais a mim agora também fazem isso? Esperar. Palavra que me inunda de pavor. E ódio.

Mas há que ter uma graça em tudo. Assim como há polêmica o tempo todo, também tem de existir uma piada para tudo. Quando se permite não se pensar na origem do universo e de todos os escombros soterrados dentro da sua casca de noz, quando não nos perguntamos quem nos fez e para onde vamos, e para quem teremos de prestar contas depois de tudo, é aí que se pode se agarrar em tudo e apenas viver o momento. Ou melhor que isso, se desacorrentar de tudo, e viver o momento. Sem sangue no teclado. Sem um monitor úmido, apenas o reflexo do branco dos dentes asseados no espelho, e o viver. A certeza. Essa eu quero pra mim, a consoladora certeza de que estou viva. Aí todos os problemas parecem virar uma simples cortina de fumaça e os fardos em nossas costas, flores recém colhidas: tulipas amarelas. A chuva que cai insistentemente sobre as nossas cabeças causando catástrofes todos os dias, agora serve para encharcar o solo e trazer até nosso olfato aquele delicioso cheirinho de terra molhada.

Tantos lugares para ainda pôr os pés, tantos rostos para ainda ver nascer um sorriso, mas a minha juventude vai prevalecer até onde? Até quando ela vai continuar me carregando? Eu me canso de esperar. E eu me canso de viver enjaulada. Vendo a luz do sol, mas não o tocando. Problemas de comunicação. Nada parece nos encher, no entanto, é só depois de vazios que mostramos o fundo, a verdade de verdade. Quando são recolhidos todos os escombros, resgatadas todas as vidas e limpado todo o terreno, nessa hora, quando não há mais nem um galho caído se quer para se esconder, aí claro, todo mundo é forte o bastante para aparecer e sustentar a sua mediocridade além de todos os outros.

Procriação da miséria. É isso que tenho visto, onde quer que eu olhe. E nada pode me fazer mudar de idéia, assim como também ninguém faz nada para mudar isso, aliás: nada. Partindo do princípio (famoso) de que o bater de asas de uma borboleta no Japão pode causar uma chuva no Central Park, então é melhor capturar a borboleta e pesquisá-la detalhadamente? Ou tão logo matá-la. É assim que estaremos fazendo nossas previsões daqui alguns anos? Nada muda. O mundo continua tão igual como quando foi criado, você pode não concordar, mas em sua essência é isso sim. E eu fico pensando o que me faz ficar aqui a esta hora da noite escrevendo nem eu bem sei o quê, sem saber quem e quantos irão ler, enquanto a Itália sofre com terremotos, as borboletas provocam chuva nos Estados Unidos, e o presidente deles fala bobagens terríveis a estudantes turcos. O planeta gira em torno do sol e as leis básicas da física de Newton são usadas por algum aluno que não consegue entender o que aquelas fórmulas todas significam, em algum lugar do mundo...

E novas decobertas são descobertas, e novas tecnologias aprimoradas. O mercado se expande e a propaganda se garante. E pensar que isso tudo começou com um desabafo de memórias... Mas vá lá, ainda sou jovem, se não puder divagar agora, quando é que vão me dar a concessão de fazê-lo? Eu ainda posso rir se olhar bem de longe para estes restos de entulho. Eu posso continuar indo mais a fundo, mas em alguém sempre vai doer, e algum outro sempre vai praguejar.

Alguém quem sabe, pode até mudar algo em algo. Mas eu, vou continuar passeando alegremente por cima desses morros de escombros, sustentando um sorriso no rosto, e o velho cálice nas mãos sem marcas. Vou derramá-lo em algum ponto estratégico e ficar assoprando desesperadamente até que ele comece a rolar de um canto ao outro, formando um rio sanguinolento, um fluxo escarlate que possa manchar todas as cinzas e restos, empoeirados. Nos escombros, eu: inteiramente púrpura!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Um Derramo Púrpura

Vontade boa agora, essa de escrever. Pego o meu cálice das páginas em branco e desejo transbordá-lo desta energia criadora, posso mesmo ver o líquido púrpura se derramando por entre cá: sem linhas, sem contornos, um derramo. É uma potência magnífica que só parece ter aqueles que a merecem: aqueles que a busam e a louvam, por onde andarem. Não é bebida que se possa distribuir, muito menos desperdiçá-la, visto que rege boa parte do Ser. Quero esta garrafa em minha mesa agora, sem garçom e sem telespectador de mesa vizinha que tanto provém na arte da inconveniência: quero só a energia criadora me saciando o paladar e estalando nos meus lábios em um sorvo de coragem. Vontade boa de escrever.

Como se o destino fosse algo incerto, minhas sobrancelhas se curvam e o meu rosto é um todo de estranhamento e riso. Engraçado, já conhecer o próprio destino. Mas claro, eu sei, o púrpura é eterno. Se eu pudesse prever as formas que iriam se originar logo quando vi a bebida a se depravar deste cálice, talvez iria querer que a toalha permanecesse a sustentar aquele seu branco lívido. Mas por onde meus olhos puderem focar minha visão e eu sentir que ali devo me sentar, não haverá previsão matemática ou humana que me faça mudar de idéia, e então, naquele lugar, haverá um derramo criador.

Parece-me cada vez mais comum irromper em um diálogo com alguém e ouvir aquela palavra que, só em pensá-la, sinto-me dormente e pareço querer me entregar a ela com garrafa e tudo, mas não, não amigos: o tédio não pode nos vencer. Parece-me, algumas vezes, que o rótulo da garrafa não me é mais tão eficiente, parece não vender a mercadoria com a mesma velocidade de outrora. Estão os meus rótulos se extinguindo? Ou serão os rótulos meus?

Se eu pudesse apagar o barulho dos manuais deste mundo, ah... eu o faria sim. Tudo aquilo que não é conversa com humor, debate sem filosofia ou música com qualidade, juro que extinguiria tudo. Mas me restaria o silêncio? A única certeza é que ele me parece mais convidativo a escrever, assim a simpatia é inevitável. Mas como não posso acabar com nada por aqui, vou imaginar que desta mesa não dá para escutar nada, e pronto! A sala é bem grande e o som da televisão chega muito fraco. Bem melhor assim. Tento mergulhar no meu silêncio pessoal e tocar o púrpura mais de perto, quem sabe me derramar junto com ele. Eu poderia desenhar todos os meus sonhos nesta toalha xadrez. Ainda bem que já dispendei o garçom.

Quisera eu ser capaz de me desfazer de todo o tipo de stress e desconforto enquanto penso em estar aqui. Nos dias em que temos passado, acho que não é um exagero dizer que se é feliz porque foi dormir sem ter uma crise nervosa. Nossa energia, uma enorme parte dela, é gasta em coisas que não nos satisfazem, que apenas terminam por desenvolver o nosso vazio. Desta mesa posso ver todos completando suas refeições para estarem em condições de seguir o dia, mas quantos deles irão pagar a conta na hora certa? E como suas refeições, quantos poderão dizer que se sentem "completos"?

E o som, sim, a músia que posso ouvir quando vejo o cálie se enchendo, a margem vai mudando de direção e a energia gerando ainda mais criação. Observar as outras pessoas é realmente algo divertido, é também nessas horas que uma boa música faz falta. Eu não sei quanto vai dar esta minha conta, sempre me parece que não sorvi o bastante da minha bebida predileta, mas quando chega o garçom com a conta, as minhas previsões são tidas como equivocadas e tenho de pagar muito mais do que imaginei.

É hora de deixar a mesa. Admiro-me como às vezes pode ser tão difícil manter o controle dinte de algumas situações. Mas, puxa vida! Todo esse dinheiro mais uma vez?! Como podem cobrar tanto pela bebida púrpura? Como podem exigir tanto? Será inveja pela falta de talento? Eu não posso pagar tudo isso! Se eu ao menos estivesse satisfeita, mas eu não estou, eu nunca estou satisfeita...

Vou sair deste lugar pior do que entrei... ou não? Hoje é o dia dos derramados. Vou lá, derramo tudo: derramo a garrafa, os copos e os guardanapos. Derramos os talheres, sempre mal colocados aos olhos perfeccionistas de um obsessivo compulsivo. Derramo esta toalha ridícula com estampa dos cofres públios, um xadrez de todas as cores onde todos botam a mão. Derramo a tua cara, garçom incompetente! Vou derramar também estes pratos que por muitas vezes me deixaram mais faminta do que quando entrei aqui. Um final admirável? Derramo então a tua cara também! E vamos correndo que este lugar é prisão dos que não fogem! Vamos saindo que aqui não quero mais me sentar. Quando quiser sentir essa vontade boa, procurar-me-ei em um aconchego real. Derramo, enfim... o sonho, a alma, a salvação: o púrpura.