Será que Eu sinto mesmo tanta falta sua quanto parece ser? Por isso resolvi te escrever agora, minha terna amiga. Desposei a solidão, mas quando lembro de que tenho você para me corresponder, Eu posso ainda tentar.
A maior parte do tempo, Eu tento fechar a minha mente para mim mesmo... apenas para pensar em você. Para ouvir a música mais uma vez e sentir a dor do meu sangue escorregando pelas veias, ainda minhas? Eu prometi para mim mesmo que isto iria mudar, mas Eu continuo tendo vergonha de mim, me vexar é agora o ordinário. Sem glória. Sem celebração. Mas com amor.
E se o amor deve doer de dentro para fora, se ele deve ser sempre um rio fluindo sem medo, escorrendo e pingando, gotejando sem ser vulgar... E se o amor deve ir enchendo todas as superfícies, rasas ou as mais profundas, e todos os buracos ir purificando, e lustrando, facilitando. Clareando. Então Eu amo.
Não é nenhum tipo de inspiração, minha terna, e sim fuga da certeza: eu te escrevo para fugir de todas as minhas certezas. Um poder muito forte, que o meu cérebro não tem a menor chance contra, este é o poder. É a luz em si: os sonhos são como anjos que mantêm o mal afastado, pela glória de todo este poder, os anjos nos conduzem através do paraíso e os sonhos, voando, nos perseguem.
Foi um bom torrão de tempo gasto para todos os planejamentos, toda a criação “super-imaginária” de cenas tão incertas quanto as pessoas tidas como personagens. Encontros e conversas, cartas e garrafas, livros e cenas: tudo não passou de imaginação, e imaginação nossa, minha amiga. As minhas sobrancelhas se arqueiam quando penso em tudo o que ficou para trás, você reconhece aquele meu velho gesto, mesmo estando agora a quase duzentos anos de distância, Eu suspiro e deixo o meu olhar falar por si só, enquanto permaneço de olhos fechados.
Este torrão de tempo ainda vai ser tostado, liberando o cheiro acre e ardido de desejos sapecados. Depois de tostado, ele vai ser moído e passado, vai ser o aroma mortificante do café de todos os dias. Vai penetrar fundo no meu fígado. E o cheiro vai entupir o meu espírito e se ir, deixando o líquido negro a aquecer as veias e os pensamentos.
Tenho o café, mas Eu não sei mais se o que faço é o certo ou o que eu queria que fosse o correto. Eu não tenho meta nem esperança aqui, Eu não tenho nenhuma tarefa. Veja só, minha terna amiga, não tenho nem a tarefa de me preocupar com uma tarefa futura! Ouça bem, quanta graça... Aqui Eu sei, a salvação. Aqui eu tenho você e apenas você, aqui escrevo Eu com letra maiúscula: aqui, Eu, posso.
Eu posso derramar o meu cruel egoísmo e orgulho, você bem os conhece. Continuo sentindo que Eu poderia desenterrar muito mais, talvez muito que até fosse útil para você, demasiado me agradaria.
Andando pelas ruas daqui, longe de qualquer resquício da modernidade urbana que você tem de conviver, vejo a beleza em queixos bem desenhados e articulados, posso até ver beleza em uma intelectualidade afetada, no prazer dos erros, na nostalgia dos sonhos presentes. No meu ardente desejo de rever o mar. Aqui onde a sociedade nunca irá imaginar existir telefones e computadores, onde as cerimônias e as visitas valem muito mais do que os sentimentos, posso até ver beleza em um chá servido com cortesia e apenas isso. Mas nunca será a sua beleza. O meu corpo se aquecerá se eu continuar a pensar em você. A sua água me invadirá se eu continuar a pensar...
Você é a beleza no riso tímido e nunca malicioso, é a beleza nos olhos tristes sem razão. Você tem a beleza nas palavras verdadeiras que não precisam de planejamento para se cumprirem: é mais do que beleza quando um suspiro ardente soluça do fundo do seu peito e vem à tona marejando a minha alma! Uma luta por mais ar em um pulmão que já nem mais sabe o que é respirar, o nosso torrão imortal.
E até quando acreditar em sonhar? Até onde desejar fazer tudo sozinho? Até quando desejar ser sozinho? Se o som sobe sempre quando o coração acelera e Eu não me perdôo se não me emocionar. Com você eu posso. E eu tenho calafrios. Tenho calafrios!
Não deixar o resto secar, você sempre toca neste assunto, ainda ter o que colher lá dentro, e assim querer ver a cesta sempre cheia. Enquanto os joelhos se dobram em sutil movimento acima do verde das colinas, correndo... Você lembra? Correndo... o balanço dos seus cabelos, em campos e mais campos, sempre verdes e eternos, tão eternos quanto o quê? Colhendo e apenas olhando para o alto, o único bem que realmente nos deveria interessar.
Mas daqui, tenho que partir. Você me ensinou a preservar uma boa vontade de colher, e eu me mantenho em aprendizado. De você, ainda mais, tenho a sua água imortal escorrendo na minha nuca, colhida dos poços daqueles campos. E a água continua a ser algo que flui: não importa onde você a coloque. E assim como ela, e sempre com ela, o amor me acompanha, fluente e imorredouro.