Vontade boa agora, essa de escrever. Pego o meu cálice das páginas em branco e desejo transbordá-lo desta energia criadora, posso mesmo ver o líquido púrpura se derramando por entre cá: sem linhas, sem contornos, um derramo. É uma potência magnífica que só parece ter aqueles que a merecem: aqueles que a busam e a louvam, por onde andarem. Não é bebida que se possa distribuir, muito menos desperdiçá-la, visto que rege boa parte do Ser. Quero esta garrafa em minha mesa agora, sem garçom e sem telespectador de mesa vizinha que tanto provém na arte da inconveniência: quero só a energia criadora me saciando o paladar e estalando nos meus lábios em um sorvo de coragem. Vontade boa de escrever.
Como se o destino fosse algo incerto, minhas sobrancelhas se curvam e o meu rosto é um todo de estranhamento e riso. Engraçado, já conhecer o próprio destino. Mas claro, eu sei, o púrpura é eterno. Se eu pudesse prever as formas que iriam se originar logo quando vi a bebida a se depravar deste cálice, talvez iria querer que a toalha permanecesse a sustentar aquele seu branco lívido. Mas por onde meus olhos puderem focar minha visão e eu sentir que ali devo me sentar, não haverá previsão matemática ou humana que me faça mudar de idéia, e então, naquele lugar, haverá um derramo criador.
Parece-me cada vez mais comum irromper em um diálogo com alguém e ouvir aquela palavra que, só em pensá-la, sinto-me dormente e pareço querer me entregar a ela com garrafa e tudo, mas não, não amigos: o tédio não pode nos vencer. Parece-me, algumas vezes, que o rótulo da garrafa não me é mais tão eficiente, parece não vender a mercadoria com a mesma velocidade de outrora. Estão os meus rótulos se extinguindo? Ou serão os rótulos meus?
Se eu pudesse apagar o barulho dos manuais deste mundo, ah... eu o faria sim. Tudo aquilo que não é conversa com humor, debate sem filosofia ou música com qualidade, juro que extinguiria tudo. Mas me restaria o silêncio? A única certeza é que ele me parece mais convidativo a escrever, assim a simpatia é inevitável. Mas como não posso acabar com nada por aqui, vou imaginar que desta mesa não dá para escutar nada, e pronto! A sala é bem grande e o som da televisão chega muito fraco. Bem melhor assim. Tento mergulhar no meu silêncio pessoal e tocar o púrpura mais de perto, quem sabe me derramar junto com ele. Eu poderia desenhar todos os meus sonhos nesta toalha xadrez. Ainda bem que já dispendei o garçom.
Quisera eu ser capaz de me desfazer de todo o tipo de stress e desconforto enquanto penso em estar aqui. Nos dias em que temos passado, acho que não é um exagero dizer que se é feliz porque foi dormir sem ter uma crise nervosa. Nossa energia, uma enorme parte dela, é gasta em coisas que não nos satisfazem, que apenas terminam por desenvolver o nosso vazio. Desta mesa posso ver todos completando suas refeições para estarem em condições de seguir o dia, mas quantos deles irão pagar a conta na hora certa? E como suas refeições, quantos poderão dizer que se sentem "completos"?
E o som, sim, a músia que posso ouvir quando vejo o cálie se enchendo, a margem vai mudando de direção e a energia gerando ainda mais criação. Observar as outras pessoas é realmente algo divertido, é também nessas horas que uma boa música faz falta. Eu não sei quanto vai dar esta minha conta, sempre me parece que não sorvi o bastante da minha bebida predileta, mas quando chega o garçom com a conta, as minhas previsões são tidas como equivocadas e tenho de pagar muito mais do que imaginei.
É hora de deixar a mesa. Admiro-me como às vezes pode ser tão difícil manter o controle dinte de algumas situações. Mas, puxa vida! Todo esse dinheiro mais uma vez?! Como podem cobrar tanto pela bebida púrpura? Como podem exigir tanto? Será inveja pela falta de talento? Eu não posso pagar tudo isso! Se eu ao menos estivesse satisfeita, mas eu não estou, eu nunca estou satisfeita...
Vou sair deste lugar pior do que entrei... ou não? Hoje é o dia dos derramados. Vou lá, derramo tudo: derramo a garrafa, os copos e os guardanapos. Derramos os talheres, sempre mal colocados aos olhos perfeccionistas de um obsessivo compulsivo. Derramo esta toalha ridícula com estampa dos cofres públios, um xadrez de todas as cores onde todos botam a mão. Derramo a tua cara, garçom incompetente! Vou derramar também estes pratos que por muitas vezes me deixaram mais faminta do que quando entrei aqui. Um final admirável? Derramo então a tua cara também! E vamos correndo que este lugar é prisão dos que não fogem! Vamos saindo que aqui não quero mais me sentar. Quando quiser sentir essa vontade boa, procurar-me-ei em um aconchego real. Derramo, enfim... o sonho, a alma, a salvação: o púrpura.
É bom poder acordar pela manhã e encontrar textos como este esperando para serem lidos. Sabrina observa o mundo e as pessoas com ares de elevada sensibilidade e sapiência, apesar da pouca idade biológica. Assim como o liquído benévolo e escarlate, a leitura do texto também nos entorpece e acalma, quiçá fazendo transbordarem os sonhos...
ResponderExcluirAtravés de mais um texto provocativo ela nos conduz à reflexão. Durante a leitura somos esbufeteados por nossas ideologias, as quais deixamos adormecidas em alguns momentos, e a Sabrina, brilhantemente faz com que acordem dentro de nós. Sabrina, precisamos que tu faça a reserva desta mesa ao fundo, pois é necessário tomar cálices e mais cálices do púrpura.
ResponderExcluirNem sei o que dizer.
ResponderExcluirLogo, não digo nada